Cepe Editora lança em Vitória de Santo Antão novo de livro de Rafael Setestrelo

No dia 1º de outubro de 1940, um eclipse total do sol, um dos fenômenos astronômicos marcantes da primeira metade do século 20, foi visto no Nordeste e, particularmente, em Pernambuco, Paraíba e Ceará. No Sertão e Zona da Mata do Estado, a escuridão repentina foi recebida com um misto de pavor e misticismo, selando para muitos a chegada do juízo final. É desse fato histórico, e das memórias familiares geradas por ele, que o autor Rafael Setestrelo (pseudônimo de Rafael Augusto Costa Oliveira) constrói a narrativa do ficcional A Estrada dos Homens Doidos, livro que a Cepe Editora lançará no dia 20 de março, próxima sexta-feira, a partir das 19h30, no  Instituto Histórico e Geográfico de Vitória de Santo Antão. No evento que apresentará a obra, Rafael conversará com o professor, escritor e crítico literário Marcos de Andrade Filho. 

Com 15 livros publicados e autor de uma farta produção literária, entre cordéis, poemas, peças e romances, Rafael Setestrelo se destaca na nova geração de escritores pernambucanos que transita com genialidade pelo realismo mágico, construindo narrativas em que a realidade sertaneja, em todo o seu aspecto cultural e social, coexiste com o fantástico e o imaginário popular. A Estrada dos Homens Doidos, ao lado de outras obras como Dom Pirrito (Editora Arrelique, 2023) e A Fabulação de Luzia (Editora Folheando, 2025), integram um momento de criação definido por Rafael como Ciclo dos Estranhos. “O que há nessa ideia é justamente a presença crucial da oralidade dos personagens prevalecendo sobre a narrativa, assim também como abordagem a temas mais psicológicos e até históricos da Zona da Mata pernambucana”, indica. 

Entre tantos que protagonizaram o “eclipse do fim do mundo”, nos idos dos anos 1940, estavam Urbano de Souza Costa, o Pirrito (avô do autor), seu irmão José e um amigo, que saíram de madrugada de  Glória de Goitá rumo a Limoeiro (uma caminhada com mais de vinte quilômetros), para negociar na feira local. Se viram diante da experiência mais extraordinária de suas vidas ao presenciarem o eclipse solar, nas proximidades da Serra da Passira. Esse fato foi considerado pelo avô do autor como algo sobrenatural. Ouvido durante toda a infância, alimentou a imaginação e a fabulação de Rafael, que o transportou para as 60 páginas do livro estabelecendo uma ruptura com a realidade. “O eclipse como  um divisor de águas da história, algo que pudesse mexer com os personagens, revelando o que estava escondido”, sinaliza. 

O romance apresenta a jornada de três irmãos – Rubem, José e Judá – que se reencontram depois de crescidos e caminham rumo à cidade de Limoeiro para participar de um velório. Atravessam a estrada mística e de mal-assombros, testemunhando o eclipse e trazendo à tona memórias de um passado marcado por culpas, ressentimentos, traições, um pai rude e violento (Israel), que estabeleceu diferenças na criação, e uma mãe (Lia) oprimida e silenciada. “Acho que A Estrada dos Homens Doidos é um romance bem humano, sem muitas máscaras. Os personagens são impulsivos e engenhosos em seus planos, e também trazem as marcas da forma como foram educados. Acho que todo mundo carrega cicatrizes da criação/educação”, avalia o autor.

Estruturada em dez capítulos e com forte conexão com a oralidade, a obra costura presente e passado, em que narrações e diálogos muitas vezes são construídos no mesmo parágrafo e sem distinção entre os interlocutores – o que destaca a capacidade do autor em subverter normas literárias tradicionais. “Sua estrutura, alternando presente e passado entre capítulos e letras, revela um arrojo narrativo muito interessante do ponto de vista formal. As partes nomeadas por letras, por exemplo, em sua maioria são narradas pelo caçula José, mas ao final ganham outros narradores, numa mudança que enriquece a trama e que exige do leitor uma atenção digna dos trabalhos literários tecidos por quem conhece o ofício do ato de escrever”,  indica o escritor e membro do Conselho Editorial da Cepe, Roberto Azoubel. 

Sobre o autor – Escritor, cordelista, ator e rabequeiro, Rafael Setestrelo nasceu em Vitória de Santo Antão, Zona da Mata Sul, em  24 de novembro de 1981. Filho e neto de agricultores, é professor de Língua Portuguesa no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco (IFPE) Campus Vitória de Santo Antão desde 2005. Na instituição, desenvolve, junto aos alunos, o projeto LiterAtos, que estabelece o diálogo entre a literatura e manifestações culturais, sobretudo, da Zona da Mata, como o mamulengo, o maracatu e o cavalo-marinho. Venceu o  7° Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura (Grande Prêmio e Melhor Obra da Zona da Mata), em 2020, com o poemário Dylan Pajeú (Cepe, 2022), o Prêmio Mar que Arrebenta, em 2023, com Dom Pirrito, entre outros.

Serviço:

*Evento de lançamento do livro A Estrada dos Homens Doidos

Data: 20.03, sexta-feira
Horário: 19h30
Local: Instituto Histórico e Geográfico de Vitória de Santo Antão
Endereço: R. Imperial, 187,  Matriz, Vitória de Santo Antão

Preço do livro: R$ 50,00 (impresso)

*Aberto ao público