Perigo à espreita: Pernambuco registra mais de 400 mortes por HIV/Aids em 2017

No final da década de 1970, foram registrados os primeiros casos da infecção que viria a ser identificada, anos depois, como Síndrome da Imunodeficiência Adquirida – mais conhecida pela sigla em inglês Aids. Era o começo da epidemia que já matou mais de 35 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo a Unaids, programa global da Organização das Nações Unidas (ONU) dedicado ao assunto.

No final da década de 1970, foram registrados os primeiros casos da infecção que viria a ser identificada, anos depois, como Síndrome da Imunodeficiência Adquirida – mais conhecida pela sigla em inglês Aids. Era o começo da epidemia que já matou mais de 35 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo a Unaids, programa global da Organização das Nações Unidas (ONU) dedicado ao assunto.

O vírus pode ser transmitido pelo contato com sangue infectado, pela relação sexual desprotegida ou de mãe para filho – durante a gestação ou pela amamentação. A prevenção inclui o uso sistemático de preservativos e seringas descartáveis. Para mulheres que desejam engravidar, a recomendação é fazer o teste de HIV antes ou no início da gestação. Se o resultado for positivo, a gestante deve começar imediatamente a tomar o medicamento que impede a infecção do bebê.

Aline*, 28 anos, descobriu que tem o vírus após o segundo parto e, nas gestações seguintes, fez o tratamento. Ela tem quatro filhos, nenhum deles com HIV. Mas, a cada nascimento, Aline interrompia o uso de remédios. “Eu só tomava quando estava grávida, porque eu não aceitava, achava que iria morrer logo, não queria informações. Aprendi muito”, lembra.

Chefe do serviço de doenças infecciosas parasitárias do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Paulo Sérgio Ramos explica que o vírus ataca o sistema imunológico, responsável pela defesa do organismo. “Ele tem efeito aditivo, ou seja, vai ampliando a ação ao longo dos anos, o que acarreta o aparecimento de doenças infecciosas e alguns tipos de câncer. Pessoas com HIV/Aids têm maior vulnerabilidade à pneumonia por um fungo específico, além de poder contrair infecções no cérebro, nos pulmões e em outros órgãos”, informa.

Contrair o HIV, no entanto, não significa estar doente de Aids. É possível, com medicação, controlar a carga viral e não desenvolver a doença. O infectologista garante que, com acesso ao tratamento fornecido gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS), o paciente pode ter boa qualidade de vida. “Com poucos medicamentos, até um comprimido ao dia, e baixos efeitos colaterais, esses indivíduos podem viver o número de anos a que estão geneticamente determinados. Mas, para isso, precisam adotar um estilo de vida saudável”, esclarece Ramos.

A organização não governamental (ONG) Gestos, Soropositividade, Comunicação e Gênero, com sede no Recife, trabalha na defesa dos direitos humanos de pessoas soropositivas ou vulneráveis às infecções sexualmente transmissíveis e ao HIV. O assessor de projetos da entidade, Jair Brandão, aponta problemas ocasionais de fornecimento de medicamentos em Pernambuco. “Desde 2014, enfrentamos a falta pontual de antirretrovirais. Os pacientes ficam prejudicados no acesso ao tratamento, que é garantido por lei federal”, lamenta.

Na Alepe, a Comissão Especial de Combate ao HIV/Aids, Tuberculose e Hepatites, que atuou em 2015, discutiu essa questão. A presidente do colegiado, deputada Teresa Leitão (PT), lembra que, na época, o problema foi a relação do Governo Estadual com a empresa de distribuição dos medicamentos. “Quando havia qualquer atraso no pagamento, eles paralisavam as atividades, e o Ministério Público estadual precisou intervir”, recorda. François Figueiroa afirma que os remédios são fornecidos pelo Ministério da Saúde. “Eventualmente, o órgão não tem agilidade para mandar ou envia o medicamento em duas parcelas. A SES se esforça para que não chegue a faltar medicamento na ponta”, explica.

Preconceito – Há 30 anos, em 1⁰ de dezembro é celebrado o Dia Mundial de Luta Contra a Aids. A data foi instituída em 1987 pela Assembleia Mundial de Saúde e a ONU, para buscar mais solidariedade a quem foi infectado pelo HIV/Aids. O preconceito é o principal motivo pelo qual as pessoas sentem receio de contar a parentes e amigos que têm o vírus. Assim como nos casos de Aline e Pedro, poucos sabem da infecção de Daniel*, 24 anos, que contraiu HIV com o ex-namorado. “Eu acredito que, até hoje, ele não saiba que tem o vírus. Se sabe, ocultou de mim. Não tenho coragem de contar, até porque foi muito difícil para mim também. As únicas pessoas que sabem são minha mãe e meu atual namorado”, revela.

A enfermeira Roberta Correia atua junto a um grupo de jovens na ONG Gestos. Em encontros semanais, os participantes conversam sobre direitos sexuais e reprodutivos, gênero, raça, entre outros assuntos. A profissional observa diferenças entre adultos e jovens que se descobrem soropositivos. “O jovem se sente congelado, com muitas dúvidas: se vai poder ter filhos, como fazer para tomar a medicação durante um intercâmbio no exterior. Esse projeto me orgulha, porque vejo como muitos chegam desesperados, pensando até em se matar, e hoje estão bem, sorridentes”, conta emocionada.

O gestor estadual François Figueiroa reforça que não há motivo para ter medo de alguém com HIV. “Beijar, abraçar, dar carinho, lágrima, suor, saliva, sentar na mesma cadeira, beber água no mesmo copo, nada disso transmite HIV. Não precisa ter medo, discriminar nem segregar uma pessoa com o vírus. A epidemia que mais maltrata a pessoa com HIV é a do preconceito.”

*Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados.

 

Informações da Alepe

Foto: Kerol Correia

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